<em>Uma longa viagem com Álvaro Cunhal</em><font color=0093dd>*</font><br>ou o seu retrato indirecto
É um notável documento sobre a personalidade e a vida de Álvaro Cunhal este livro de João Céu Silva, repórter do Diário de Notícias que, com invulgar persistência e empatia, percorreu várias regiões do nosso país, confrontando o texto do romance Até Amanhã, Camaradas e outras ficções de Manuel Tiago com depoimentos de companheiros de luta e amigos do antigo secretário-geral do Partido Comunista Português ou até mesmo simpatizantes que nesta ou naquela ocasião com ele privaram e o viram agir, desde a prisão a reuniões conspirativas ou campanhas eleitorais.
Até Amanhã, Camaradas é o grande livro de ficção do século XX sobre a resistência clandestina. João Céu Silva quis iluminar esse período escuro e heróico e também muito doloroso do antifascismo em Portugal. Deslocou-se assim dos campos e povoações do Oeste e do Ribatejo ao Alentejo, falou com antigos pastores e jornaleiros, com camponeses, pedreiros ou intelectuais, aqueles que tinham um passado político ou sabiam de quem melhor o pudesse informar. Com diversos militantes com larga história revolucionária, entre eles Custódio Gingão, António Dias Lourenço e Jaime Serra, que prestou um depoimento muito rico sobre a sua participação na Acção Revolucionária Armada. Por vezes essas conversas gravadas extrapolam do projecto inicial, derivam para outros factos, mas são interessantíssimas, humanas, valiosas social e historicamente.
Estamos assim perante um conjunto de testemunhos preciosos, que não só iluminam a figura do homem despojado, austero e contudo capaz de alegria e afectividade que era Álvaro Cunhal, como se tornam um painel vastíssimo da organização do PCP, da vida militante, de mil peripécias da actividade revolucionária, de momentos de convívio. Figuras hoje míticas como Catarina Eufémia ou o Chico Miguel e os dias inesquecíveis da Reforma Agrária, das lutas e do quotidiano nas grandes cooperativas, até aos dias tristes das comissões liquidatárias e do regresso dos aramados aos campos que haviam sido colectivos.
No balanço de todos estes testemunhos projecta uma imagem de Álvaro Cunhal extremamente humana. Mostra um homem respeitado por todos, que recusa sempre a lisonja, que não aceita a intriga, antes procura moderar, se as encontra, as pequenas vaidades ou os pequenos egoísmos e invejas de quase todos os seres humanos. É um camarada experiente, um conselheiro discreto, alguém que pelo exemplo, pela palavra serena, incentiva a acção e o esforço dos que o rodeiam. A simplicidade com que, orientando e dirigindo, Cunhal sabia manter?se ao nível dos outros, ressalta destes diálogos, destas memórias, destes retalhos de história viva.
Álvaro Cunhal era de facto – e não se assumia como tal – um verdadeiro herói, capaz de enfrentar, sem alarido nem temor, qualquer perigo e de dar força e confiança aos que o acompanhavam.
Bem longe de compor o seu retrato para a posteridade (nele não havia nem uma só gota de narcisismo ou de ambição pessoal), Cunhal transcendia-se no dia a dia do trabalho, do projecto, das contrariedades e das euforias, capaz de alegria como de dureza, quando necessária, e de uma infinita generosidade na dádiva ilimitada de si mesmo à causa colectiva. Ela já se tornara parte de si.
Fez uma absoluta opção de classe. Até na sua própria casa, que era bonita, mas pequena, reinava a modéstia. Ele quase se envergonhava de ter mais meia dúzia de trastes do que outros dos seus camaradas. Não havia nem sombra de encenação neste seu despojamento.
Na morte foi igualmente rigoroso: nem discursos, nem túmulo, sequer uma campa rasa. Apenas a cremação e as cinzas dispersas ao vento.
O contraste entre Álvaro Cunhal e os dirigentes comunistas da Europa de Leste, que aliás o admiravam pela cultura política e pela capacidade de acção, era impressionante. Recusou sempre radicalmente o culto da personalidade. Uma coisa, sim, ele tinha no mais alto grau: o sentimento da honra, que nem é em si aristocrático nem burguês nem proletário, mas inerente ao homem, embora nem todos o possuam ou o desenvolvam e que não deve confundir-se nunca com a vaidade.
Neste livro de João Céu Silva vemos surgir o perfil de Cunhal em páginas dos seus romances e contos e nas opiniões e recordações dos que sobre ele falam, além dos já referidos, seja um Francisco Melo, um Borges Coelho, uma Maria Eugénia Cunhal, um João Honrado e outros...
Álvaro Cunhal até pode ser facilmente entendido, apesar da variedade dos seus talentos e dos terrenos em que se expressou, das marcas que na vida e na história deixou. Até porque ele era, de facto, um autêntico herói, o que não significa exactamente a perfeição, mas uma desmedida coragem, irmã da inteligência e da vontade, próxima parente da capacidade de amor, no sentido mais lato e generoso desta palavra.
* - João Céu Silva, Uma Longa Viagem com Álvaro Cunhal, Ed. Asa, Porto, 2005
Estamos assim perante um conjunto de testemunhos preciosos, que não só iluminam a figura do homem despojado, austero e contudo capaz de alegria e afectividade que era Álvaro Cunhal, como se tornam um painel vastíssimo da organização do PCP, da vida militante, de mil peripécias da actividade revolucionária, de momentos de convívio. Figuras hoje míticas como Catarina Eufémia ou o Chico Miguel e os dias inesquecíveis da Reforma Agrária, das lutas e do quotidiano nas grandes cooperativas, até aos dias tristes das comissões liquidatárias e do regresso dos aramados aos campos que haviam sido colectivos.
No balanço de todos estes testemunhos projecta uma imagem de Álvaro Cunhal extremamente humana. Mostra um homem respeitado por todos, que recusa sempre a lisonja, que não aceita a intriga, antes procura moderar, se as encontra, as pequenas vaidades ou os pequenos egoísmos e invejas de quase todos os seres humanos. É um camarada experiente, um conselheiro discreto, alguém que pelo exemplo, pela palavra serena, incentiva a acção e o esforço dos que o rodeiam. A simplicidade com que, orientando e dirigindo, Cunhal sabia manter?se ao nível dos outros, ressalta destes diálogos, destas memórias, destes retalhos de história viva.
Álvaro Cunhal era de facto – e não se assumia como tal – um verdadeiro herói, capaz de enfrentar, sem alarido nem temor, qualquer perigo e de dar força e confiança aos que o acompanhavam.
Bem longe de compor o seu retrato para a posteridade (nele não havia nem uma só gota de narcisismo ou de ambição pessoal), Cunhal transcendia-se no dia a dia do trabalho, do projecto, das contrariedades e das euforias, capaz de alegria como de dureza, quando necessária, e de uma infinita generosidade na dádiva ilimitada de si mesmo à causa colectiva. Ela já se tornara parte de si.
Fez uma absoluta opção de classe. Até na sua própria casa, que era bonita, mas pequena, reinava a modéstia. Ele quase se envergonhava de ter mais meia dúzia de trastes do que outros dos seus camaradas. Não havia nem sombra de encenação neste seu despojamento.
Na morte foi igualmente rigoroso: nem discursos, nem túmulo, sequer uma campa rasa. Apenas a cremação e as cinzas dispersas ao vento.
O contraste entre Álvaro Cunhal e os dirigentes comunistas da Europa de Leste, que aliás o admiravam pela cultura política e pela capacidade de acção, era impressionante. Recusou sempre radicalmente o culto da personalidade. Uma coisa, sim, ele tinha no mais alto grau: o sentimento da honra, que nem é em si aristocrático nem burguês nem proletário, mas inerente ao homem, embora nem todos o possuam ou o desenvolvam e que não deve confundir-se nunca com a vaidade.
Neste livro de João Céu Silva vemos surgir o perfil de Cunhal em páginas dos seus romances e contos e nas opiniões e recordações dos que sobre ele falam, além dos já referidos, seja um Francisco Melo, um Borges Coelho, uma Maria Eugénia Cunhal, um João Honrado e outros...
Álvaro Cunhal até pode ser facilmente entendido, apesar da variedade dos seus talentos e dos terrenos em que se expressou, das marcas que na vida e na história deixou. Até porque ele era, de facto, um autêntico herói, o que não significa exactamente a perfeição, mas uma desmedida coragem, irmã da inteligência e da vontade, próxima parente da capacidade de amor, no sentido mais lato e generoso desta palavra.
* - João Céu Silva, Uma Longa Viagem com Álvaro Cunhal, Ed. Asa, Porto, 2005